"As pessoas querem perguntar sobre minha vida, mas se vocês simplesmente olharem para as coisas que eu escrevo, ai sim saberão de toda minha história." (Marilyn Manson)

ACONTECEU COMIGO


Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 2011


"Quando a vida te fecha uma porta, 
em algum lugar Deus te abre uma janela"


Como o Jam entrou na minha vida: 


Abril de 1999. Eu estava literalmente sobrevivendo, alguns meses após perder o grande amor da minha vida. Aos 23 anos de idade, me sentindo perdida e sozinha, com dois filhos (um menino prestes a completar 4 anos e uma menininha com menos de 1 mês de vida) e  sem a menor perspectiva de nada.
Questionava Deus em relação a vida que tinha acabado pra mim...eu estava seca por dentro...justo eu que sempre tive uma capacidade absurda de amar...meus dias se arrastavam em altos e baixos, chorava mais do que ria, e quando eu o fazia, era um sorriso insosso, amarelo...sem graça! 

Parei de sonhar, congelei meu coração...nos poucos momentos que me pegava rezando, eu só sabia pedir...e sempre era o mesmo pedido:

- Deus, fazei com que os dias corram como é de praxe no último capítulo das novelas das oito.
(Daquele jeito que, pro final ser feliz para os telespectadores, tem que acontecer tudo rapidamente e, como o tempo é curto, o autor da trama tem por hábito omitir várias coisinhas que ficam guardadas dentro daquela lacuna dos ''2 anos depois''...)


Pra mascarar um pouco a depressão que se instalou dentro de mim, comprei um computador e fiz dele o meu refúgio nos momentos de solidão. Todo dia era a mesma coisa, Cherry era o meu ''nickname'', escolhia uma sala de bate-papo e lá ia eu, esquecer um pouco da vida e da minha angustiante realidade.
Até o dia que um tal de Iceman adentrou uma das salas que eu fazia parte e, aos invés do costumeiro ''Boa noite, quem quer tc?'', colou o texto abaixo que me sacudiu por dentro:



O que é o Amor?


É um pedaço do teu corpo entregue em outra alma,
É o pensamento que vaga distante, quando tu não estás presente.
É o jeito de falar com os olhos, sem precisar nada dizer,
É só se perceber o brilho, que ofusca a quem se busca...
É deixar vagar a mente...
É saber que mesmo distante, tens teu coração junto ao meu...
É saber que tu podes penetrar no meu corpo, sem precisar me tocar...
É sentir que estás perto, mesmo sem te enxergar...


É perceber que tu chegastes com o tempo...
Nos descaminhos que nos fizeram unir os corpos,
Como se as almas se encontrassem...
É sentir-se completo, pleno, cheio de forças e de sonhos...
É poder sentir teu toque, teu cheiro, teu gosto, teu ser...
É sentir o ofegar da tua respiração, quando encontra com a minha...


É saber que teu abraço, me sustenta e me ampara...
É ouvir tua voz trêmula, com medo da vida que me trouxestes até tu.
É ver que o tempo passou mais devagar para mim...

O Amor, o que é o Amor...
nessa vida sem rumo, sem tempo certo?
É o encontro da escuridão da noite, com os raios do sol...
É o nascimento da semente, que cresce para a vida...
Que faz crescer a flor, que exala o mais doce perfume...
E que se deixa morrer, para que dela outras possam nascer...


O Amor, o Amor é...


O encontro das gotas do mar, que fazem crescer as águas...
É a chuva que cai...
É o vento forte, que se mostra na tempestade...
É a brisa que te beija sempre ao amanhecer...
É o sol que brilha, lembrando que é hora de um novo amanhecer...


O Amor, o Amor é...


Como a vida, que começa devagar, nos passos incertos de uma criança...
Depois continua na incerteza de passos ainda mais incertos...
E por fim, se vê o caminho que o tempo não te deixou seguir
Por não ter chegado a tua hora...

E quando é a hora de Amar???
São todos os segundos que a vida te entrega,
São todas as manhãs que o dia te chama,
São todas as noites que o dia te cala.


É quando teu coração se prepara para dar,
Não esperando para receber...
É quando tu te entregas, sem medo de perder...
É quando tu consegues sorrir de tanto chorar...
É quando tu consegues se elevar dos sonhos...
É quando teus lábios murmuram o silêncio...
É quando tua voz penetra no espaço...
É quando tu sentes que chegou tua hora...
É quando as horas encontram seu tempo...
É quando um pedaço de mim se vai...
É quando percebo que tu já não vives em mim..


É então que busco encontrar os sonhos...
Para então poder ter a vida ao meu alcance...
Antes que eu não possa mais senti-la...
É tentar te encontrar na eternidade...
Para novamente poder te Amar...


Cada trecho foi sendo dissecado por mim, as lágrimas rolavam, era um sinal! Era o Xande falando comigo através de outra pessoa conectada à rede sabe-se lá de onde...


CONTINUA....

É incrível como pessoas são instrumentos e nem se dão conta disso...a quilômetros de distância se encontrava o tal do Iceman (Homem Gelo) que alheio ao que se passava comigo, se pôs a conversar com as participantes de nick rosa da sala que suspiravam animadamente diante de tamanho romantismo vindo de um alguém por trás do nick que se dizia gélido...
Eu, sem os floreios costumeiros das participantes da sala, enviei uma mensagem oculta:

- Por favor, envie esse texto para o meu e-mail...é muito importante pra mim!

Santa ignorância! Nessa época eu desconhecia o Ctrl + C seguido de Ctrl + V...



A criatura do outro lado interpretou como qualquer usuário de computador do sexo masculino faria: ''OPA! ME DEI BEM!''

O e-mail chegou em instantes! Meu provedor era excelente! Funcionava que era uma beleza!
''-Eu te amo, Openlink!'' - Eu pensei.
Lá estava ela...a mensagem ''do Xande'' pra mim!


Eu, profundamente sensibilizada, imprimi e, antes de desligar e ir me deitar munida do meu ''bilhete enviado do céu'', retornei ao e-mail e respondi educadamente com as seguintes palavras:
- Obrigada, Iceman! Vc não faz idéia do que isso significa pra mim! Boa noite! Beijos, Cherry.



Desliguei o computador sem imaginar que tinha deixado no vácuo, alguém lá do outro lado da rede, há uns 400 km de distância, em algum lugar de São Paulo, com a curiosidade aguçada e aguardando ansiosamente um novo contato...

CONTINUA....

No dia seguinte, como de costume, depois de todo o ritual da manhã com a minha bebê recém chegada (esqueci de comentar, ela tinha apenas 20 dias de vida), liguei o pc e ao clicar no ícone do provedor (o jurássico Openlink) deu início aquele típico barulhinho da ''discagem'' que, confesso, me dava uma leve irritação.
Opa! Tem um novo e-mail!
Remetente: Iceman (???)
- O que será que ele quer? - Pensei. Curiosa, fui lá xeretar.
Não lembro os detalhes com exatidão, mas foi mais ou menos assim:



"Cherry,


 Me perdoe se estou invadindo a sua intimidade, mas a sua urgência com relação ao texto que postei ontem na sala de bate-papo me deixou curioso. Se não quiser falar à respeito ou responder ao meu e-mail, vou entender. De qualquer maneira, estarei no Tema Livre do Uol hoje à noite se quiser me encontrar por lá.


Beijos,

Iceman"





 Bom, nunca tive problemas em comentar sobre o dia 8 de Setembro de 1998. Mesmo este sendo,  sem sombra de dúvidas, o pior dia da minha vida. 
Caiu numa 3a. feira, dia seguinte do feriado de 7 de Setembro.
Após passar um final de semana marcante na companhia dos padrinhos do nosso filho Matheus, ter sido cercada de muitos mimos por estar à espera do nossa Beatriz (apesar dos 2 meses e meio de gestação, meus instintos de mãe já me diziam que seria menina), e ter tido uma noite de amor maravilhosa, guardo a lembrança de sentir um aperto no peito em ver o Xande saindo pra trabalhar. Foi uma sensação estranha de saudade aliada a uma vontade surreal de pedir pra ele não ir trabalhar e ficar em casa com a gente. Mas não tinha como...principalmente depois de um feriado...sem chance! Nem tentei...

O dia correu normal, e foi muito gostoso, um pouco antes do horário do Xande chegar do trabalho meus pais vieram me visitar e trouxeram minha tia que estava à passeio no Brasil depois de quase 3 anos morando em Nova Iorque. Estávamos papeando e vendo fotos, o Matheus nem piscava assistindo algum dos seus desenhos favoritos na televisão, quando o telefone tocou. O telefone estava na cozinha, minha mãe foi atender e, em seguida, foi na sala e chamou o meu pai. Juro que não notei nada de estranho, até o momento em que ela e minha tia se olharam e balbuciaram algo entre si que eu não consegui captar. Li mais ou menos os lábios da minha mãe e entendi ''O Alexandre BATEU''. E eu, imediatamente me meti na conversa: ''Ele bateu com o carro?''.
Minha tia me pegou pela mão, me levou pro banheiro e disse:

- Dadai, minha filha, você vai ter que se manter calma por causa do bebê! 
Na sequência minha mãe chegou com um copo de água com açúcar. E como ela tremia! As duas mãos que seguravam o copo, os lábios e os olhos estavam arregalados traduzindo um pavor que me fez entender que era algo muito, muito sério!
Minha reação foi dura e firme: 

- Gente, seja lá onde ele estiver, quero ir pra lá AGORA!- E saí em disparada.
Fui atrás do meu pai que ainda estava no telefone com a minha comadre (a melhor amiga do Xande, a irmã que ele escolheu depois de ter perdido seu único irmão quando eram adolescentes)...
Ao ver o semblante do meu pai, uma onda de terror me golpeou por dentro. Ali, eu já sabia!



Ao terminar a ligação ele me pegou pela mão e disse pra eu o acompanhar. Depois de descer o elevador, e entrar no carro sem dar uma palavra sequer, eu quebrei o silêncio e disse:
- Pai, o Xande morreu, né?

Ele balançou a cabeça confirmando. Em seguida me explicou tudo o que levou tantos minutos tentando assimilar durante sua fatídica conversa telefônica, sem me poupar os detalhes.


Não sei bem explicar como após ficar a par de tudo, consegui manter o controle. Me veio à mente umas das palestras que ouvi falando sobre perdas e como as pessoas que morrem jovens e saudáveis tem dificuldade em aceitar o desencarnar quando este se dá de forma tão agressiva. 
Decidi que, pra amenizar um pouco a dificuldade que ele teria nessa separação repentina de nós, eu procuraria me manter o mais calma possível...e, naquele momento, ao invés de me deixar sucumbir pelo ódio e revolta procurei me concentrar em pensamentos bons...

O Xande tinha uma agenda telefônica digital e o 1o. nome da lista era:  ''Adri - comadre''.
O irmão dela, nosso compadre, após a ligação do policial, chegou em minutos ao local onde estava o corpo do Xande e ali ficou sabendo de todos os detalhes que, no dia seguinte, estamparam as páginas da sessão policial de alguns jornais aqui do Rio de Janeiro:







Os dias que se seguiram foram movimentados...a campainha, o interfone e o telefone não paravam...eram amigos, parentes, vizinhos, jornalistas, amigo de amigo e desconhecidos em busca de detalhes ou porque se importavam ou apenas pra saciar a sua curiosidade.
Por um lado foi bom, porque me mantinha em  movimento...era uma forma de ''fugir'' da real realidade, ou seja, de me manter longe da preocupação de estar sozinha.

O complicado era a hora de dormir, mas meu obstetra receitou na ocasião um calmante natural que me fazia me desligar de tudo por horas e, na medida do possível, ter uma noite completa de sono.



O tempo foi passando, a vida de todos foi voltando a normalidade e foi aí que o meu autocontrole foi ficando de mal a pior...creio que a dor de um membro arrancado de corpo seja mais fácil de lidar do que a da perda do grande amor da nossa vida. Quando caímos na realidade que todo aquele pesadelo não era um mero ônus de um sonho estragado, aí o nosso mundo começa a ruir...


As únicas pessoas que restaram ao meu redor foram meus pais que fecharam o apartamento deles pra vir morar comigo e alguns poucos (pouquíssimos) amigos e familiares que seguraram as pontas dos meus momentos de calma, delírios e ira. Hora eu falava de Deus, que entendia que era uma cruz que eu tinha que carregar, em certos momentos eu blasfemava coisas tão feias que sinto vergonha até hoje, hora me pegava discando pro trabalho dele pra bater papo pra ''matar a saudade'' e, é claro, tinha meus momentos de choro e lamentações...fora que ainda era preciso conciliar a isso tudo um menininho de 4 anos, que precisava de muito amor e atenção em dobro,  e ajuda-lo a aprender a lidar e suportar, dentro do mundinho inocente dele, toda aquela confusão bem como fazer das tripas coração pra que ele conseguisse absorver na marra o motivo do ''papai ter ido morar com o Papai do Céu''. Ele também teve vários momentos de muita ira. Não desejo isso pra ninguém.


E assim fomos levando e eu, nos meus momentos de calma, fazia minha oração diária pedindo a Deus, em 1º lugar, que cuidasse de forma muito especial do meu Xande. Feito isso dava início a minha oração cotidiana:

''- Deus, fazei com que os dias corram como é de praxe no último capítulo das novelas das oito.
(Daquele jeito que, pro final ser feliz para os telespectadores, tem que acontecer tudo rapidamente e, como o tempo é curto, o autor da trama tem por hábito omitir várias coisinhas que ficam guardadas dentro daquela lacuna dos ''2 anos depois''...)''



Tudo que eu mais queria era dormir e acordar anos depois com minha vida toda diferente. Queria poder me sentir feliz de novo. Sempre acreditei nessa possibilidade embora não conseguisse imaginar como esse dia poderia chegar.

Bom, comecei a trabalhar na locadora em que o Xande era sócio.
Cair de pára-quedas em um lugar onde pra tudo já existe uma cadência é outra coisa que, pra mim, foi muito complicado de lidar. Até porque todas que ali trabalhavam já tinham total sintonia e eu cheguei meio que pra destoar o compasso.
Apesar das dificuldades em me adaptar, da cara de pena de todos que sabiam da minha história, de presenciar reações de espanto (de todos os níveis) dos clientes quando eram informados do motivo do ''querido Alexandre'' não poder mais atende-los, foi ali na videolocadora que eu encontrei forças e motivação pra dar continuidade a minha vida. Trabalhei até o final da gravidez diariamente administrando os horários de 6, 8 e 12 horas de acordo com o dia da semana e a demanda de clientes.
A parte mais compensadora foi a quantidade de pessoas queridas que conheci desde que comecei a trabalhar lá. O amparo de uns, a admiração e respeito de outros, o modo como outros ignoravam totalmente o que se passava por estarem alheios aos acontecimentos...tudo isso foi em grande parte, a grande ajuda que precisei pra subir os degraus e sair daquele mundo subterrâneo que eu me encontrava...do fundo do poço mesmo. 



Bom, chegou o dia da minha Beatriz nascer!!!


Não cheguei a comentar, mas o Xande queria esse nome a todo custo por causa da música do Chico Buarque que ele tanto amava na voz do Milton Nascimento. Todos aqui em casa sabem (inclusive a própria Bia) que eu não tinha a menor simpatia pelo nome, pois inexplicavelmente, imaginava uma menina com cara de atentada, toda sardenta, correndo pela casa, quebrando tudo e tirando meleca (e comendo...ECA!!!).

Mas confesso que, depois de ouvir a música comecei a ver o nome com outros olhos...mas ainda assim, tinha minha lista de nomes preferidos:


SOFIA (era o mais cotado, porque quando tive o Matheus, ainda no hospital,  a minha vizinha de quarto tinha rejeitado a bebê dela. Um dia enquanto eu amamentava a menina que ainda não tinha nome, eu insisti que ela tinha que escolher um nome pra pequena que mamava como um bezerrinho no meu peito, e aí ela balbuciou "Sofia" e foi naquele momento que eu pensei que no dia que eu tivesse uma filha o nome já estaria escokhido!)


ETHEL (inspirado em uma linda menina que foi minha aluna quando fui professora de inglês em uma escolinha)


SARAH (esse não seria nunca permitido porque o Xande tinha descendência árabe e devido a sua 'característica 'pão-durisse'' ele era zoado e chamado por todos os amigos de Salim. E Sarah, como alguns sabem, era conhecida como a esposa do Salim...rs)  


LARA (sem motivos especiais, mas sempre gostei do nome)





Foi super estranho ir pro hospital sem o meu marido...mas deixar tudo por conta do meu pai? Não...eu mesma tratei de todas as formalidades. Preenchi toda a papelada no hospital, sanei todas as dúvidas em termos de horários, acompanhante e seus direitos, normas do hospital, recebi a chave do quarto (no Barra D'or era assim...tipo hotel...recebíamos a chave da nossa suíte...rs) e simbora porque a hora estava chegando!

A parentada toda chegando, minha comadre à postos pra ficar ao meu lado na hora do parto (ela é da área médica), o amigo do Xande que fazia residência em Medicina também à postos porque ele seria o "câmera man". Sim, meu médico liberou a presença dos dois após meses de muitos beicinhos e pedidos meus!

Tudo fluia bem durante do parto se não fosse por 2 detalhes: 


1) Minha bexiga teve uma ''aderência'' e sofreu um micro rompimento sendo necessário fazer um precedimento a mais, mas que não me gerou grandes problemas.
2) Eu comecei a perguntar pra Adri, minha comadre, onde o Xande estava que não tinha aparecido ainda, pois ele havia me jurado que não ia superar o medo e não ficar de fora como fez no parto do Matheus.



Sabe aquela oração que eu fazia diariamente com o pedido que eu teimava em insistir e torcer pra que acontecesse? Então, acho que nesse momento, Deus finalmente ouviu as minhas preces, porque desse meu comentário com a minha amiga e comadre em diante, não sei se posso dizer, felizmente ou infelizmente, o relógio da minha vida deu um salto. Desse momento em diante, poucas são as coisas que me lembro.

Passagens que minha mãe conta:



''Um dia, depois de amamentar minha filha, falei:
- Como é estranho termos em casa pessoas estranhas, né?'' Segundo ela, eu me referia a minha Bia...

''Uma noite, ela foi obrigada a levantar da cama, pois a Bia chorava e não parava...ela foi ver e me viu sentada na cama imóvel, sem tomar nenhum atitude, alheia ao choro...como se eu não estivesse ouvindo. Ela a pegou e trouxe pra que eu amamentasse e eu disse:
- Hoje não!''



'' Por várias vezes eu não queria segurar minha filha, sendo necessário, inclusive pra amamentar, que ela, acompanhada da nossa fiel escudeira, Mônica (nossa faz-tudo por muitos anos), se revezassem entre segurar a Bia e conduzir o bico do peito até a boquinha dela. Infelizmente a Bia não se dava como nenhum leite industrial''




Pelo que me contam as pessoas que conviveram dentro da minha casa nas primeiras semanas de vida da Bia, eu passava horas a fio fechada no meu quarto chorando compulsivamente enquanto lia todas as cartinhas, cartões, bilhetinhos e poesias que o Xande fez pra mim. Meu momento de luto intenso se deu ali...nos intervalos das mamadas da Bia...
Eu me lembro vagamente disso...

Na tentativa de me distrair e me tirar de dentro do quarto uma amiga deixou o Laptop dela comigo, mas ele era pesadão e pra ficar confortável manusear, só colocando-o apoiado em cima de uma mesa...foi quando comecei a alternar  os momentos de dor, lamentação e amamentação, com os momentos de viagem pelo mundo virtual.
Comecei a ler muito, muito mesmo...incentivada por ela e minha comadre, procurava ler também piadas, coisas engraçadas e aí descobri as as salas de bate-papo virtual. 

Pronto, foi o incentivo que eu precisava. Decidi que precisava daquilo pra me libertar um pouquinho da dor...comprei um computador!

E aí, tudo começou a clarear, porque quando me sentia profundamente triste eu recorria à ele pra me tirar de órbita daquele mundo cão em que eu vivia.
Cheguei a passar quase 8 horas seguidas sentada na mesa do computador. Minhas pausas ocorriam nos momentos de refeição, banho, amamentação e sono. E só!

Essa rotina me acompanhou por vários dias, até que me deparei com a linda mensagem postada pelo tal ICEMAN na sala de bate-papo da Uol.



Outro dia li uma frase e acho que ela se encaixa perfeitamente a mim:


''DEUS DEMORA PORQUE CAPRICHA''

Pro tempo dos outros, o meu despertar pra vida foi super rápido e breve, mas pro meu corpo que estava em frangalhos era uma realidade muito duro e insuportável acordar diariamente e não ter mais acesso a quem amamos e escolhemos pra viver ao nosso lado pra sempre.


É aí que digo uma outra frase que pra mim tem um efeito muito forte, porque minha "fé" em mim, em meus filhos, na vida e, principalmente, em Deus estavam por um fio naquele período fatídico:

''O TEMPO DOS QUE TEM PRESSA É DIFERENTE DO TEMPO DOS QUE TEM FÉ''

Fui lendo linha por linha da mensagem, me emocionado e sentindo uma onda de tranquilidade tomando conta de mim...a sensação beirando a certeza de que eram palavras escritas pra mim...dele (do Xande) pra mim. Com todo cuidado e senso poético...se fazendo presente ainda que ausente. As sensações que misturaram saudade, gratidão, esperança e liberdade me provocou uma crise de choro que me fez acordar e me sacudiu por dentro!

Eu precisava daquela mensagem!!! Precisava muito!!! Pra ter sempre por perto nos momentos de dor, saudade e quem sabe um dia, de recaída!

Foi aí que o Jam entrou na minha vida...e com a presença dele, ainda que distante (olha que engraçado!) tudo começou a clarear...

Voltei a trabalhar quando a Bia tinha 2 meses. Aí tudo foi ficando mais fácil, porque (é obvio) o computador não era suficiente pra me manter sã durante todos os agonizantes dias não...
Passar o dia trabalhando, convivendo com pessoas, produzindo, aprendendo e querer chegar em casa pra ter mais alguém pra interagir além dos meus pais e meus filhos (que eu dava pouquíssima atenção) fez com que tudo fosse se tornando cada vez mais suportável e, aos poucos eu fui me readaptando, aceitando e voltando a fazer parte desse novo mundo, dessa nova vida que estava à minha espera...

CONTINUA....






















19 comentários:

  1. Nossa mulher como vc foi forte,que dor vc deveria estar sentindo e mesmo assim foi firme..Ja chorei com o começo so que ver daqui pra frente.Bjs .Ale

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    1. Foi dureza sim, Alessandra...
      Mas tendo o apoio dos meus pais de alguns amigos, e da minha fé em tempos melhores tudo se tornou possível...isso foi a minha base.
      Beijos, querida!!!

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  2. Dai ... eu já era sua fã ... agora mais ainda !!! Sua história de superação é fantástica !!! Nem preciso falar que chorei litros ... quero mais capítulos ... Beijos querida !!!

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    1. Ô...Joice! Como sempre carinhosa, né?
      Pode deixar que vou dar continuidade sim!!!
      Beijos no coração!

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  3. Respostas
    1. Obrigada!
      Agradeço também a sua visita!
      Beijos sinceros,

      Dai

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  4. Dai, que grande guerreira vc é! Nem te conheço, mas quero que saiba que admiro muito sua força, e sua luta! Beijos!

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    1. Obrigada, Camila, pelas palavras e pelo carinho!
      Um beijo especial!

      Dai

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  5. Nossa Daiana! Parei para ler agora... estou em lágrimas...é tudo muito bonito... apesar de triste... o amor e cuidado que DEUS teve com sua vida e sua família. Louvado seja DEUS por tudo o que vc alcançou e o que ainda irá alcançar.

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    1. Você falou tudo, Vanessa!
      Graças à Ele ganhei uma nova oportunidade. O desamparo que senti inicialmente foi pra que eu valorizasse tudo que estava por vir. Felizmente consegui perceber e agradeço muito a Deus por ter uma vida feliz hoje. Obrigada pelas palavras!
      Beijos Mil,

      Dai

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  6. Dai, to emocionada!
    Não conhecia essa parte da tua história.
    Você foi muito forte, muito corajosa.
    Não consigo imaginar a dor que você passou.
    O que eu vejo hoje, do que te conheço é uma super mãe, mulher apaixonada, ótima nas palavras e com um alto astral contagiante.
    Pode ter a certeza que uma "novela das 8" terminou. Mas outra logo recomeçou. E nessa, você não é a vítima, mas a protagonista da tua história! Beijão!

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    1. Nina, querida!
      Agradeço muito a Deus por ter me concedido uma nova chance e a mim mesma por ter me permitido abraça-la e assim dar continuidade a uma vida familiar tranquila e normal onde apesar das tradicionais briguinhas cotidianas todos se amam e vivem em paz e harmonia. Era tudo que eu mais pedia a Deus.

      Obrigada pelo carinho de sempre!
      Beijos no coração,

      Dai

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  7. Não consigo parar de chorar! Você é uma mulher muito corajosa,uma guerreira,e que apesar de toda sua dor,abre o seu coração e nos conta sua história e toda sua superação!Que Deus te abençoe muito,e toda a sua família.
    Te conhecia da comunidade da Disney,não conhecia seu blog,a partir de hoje sou sua seguidora!
    Beijos

    Denise

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  8. Dai, sou sua fã e nem preciso dizer isso né?? Que garra e fé, poucas vezes visto em uma pessoa!!!
    Não deixe de escrever querida e não abandone o projeto de lançar um livro.."lembra?"...rsrrsr
    Que Deus continue abençoando sempre seus caminhos!!!
    Adoro vc!♥

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    1. Claudinha, querida!!!
      Obrigada pelas palavras...a garra e a fé surgem nas horas que menos pensamos ter forças pra seguir em frente...é uma prova de que Deus não nos abandona...NUNCA!
      Esse projeto um dia se concretizará sim. Não sei quando, mas ele vai se materializar!
      Beijos Mil!!! Obrigada pelo carinho de sempre!

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  9. Querida Dai,
    ainda estou chorando com seu relato e como sou muito romântica e sensível a coisa ficou difícil. Vc é uma vencedora e merecedora de tudo que tem acontecido antes e depois da tragédia. Pessoas abençoadas nunca estarão sozinhas e sempre conquistarão novos amigos e quero deixar de ser virtual.
    Espero que vc vença cada vez mais e que seus filhos sempre possam dizer: me orgulho muito da minha mãe e a amo de verdade.
    Bjs querida
    Sheila ou Sheilinha como vc me trata.

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    1. Ahhh...Sheilinha!!!! Obrigada pelas lindas palavras!!! Realmente, o que eu mais quero é que meus filhos entendam que tudo nessa vida é superável e que usem esse episódio como um exemplo pra eles.
      Um beijo enorme nesse coração lindo que você tem!!!! Esse ano a gente sai do virtual, se Deus quiser!!!

      Dai

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Sinto como se tivesse vivido muito próxima de todos os fatos que você relata, me fere, emociona e alegra. Agradeço muito a Deus por conhecer alguém tão especial, você merece tudo que conquistou e ainda tem pra conquistar sua linda.
    Beijos repletos de carinho.
    Eliane Luz

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